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Psicobióticos: a nova fronteira entre intestino, cérebro e subjetividade

  • Foto do escritor: Pedro Kunzler
    Pedro Kunzler
  • 11 de jun. de 2025
  • 2 min de leitura

Nos últimos anos, a pesquisa em neurociência e microbiologia tem promovido uma inflexão notável na forma como entendemos os processos psíquicos. Um dos campos mais instigantes dessa interface é o dos psicobióticos — termo cunhado para descrever cepas específicas de probióticos capazes de modular o eixo intestino–cérebro, impactando diretamente em sintomas de ansiedade, humor e cognição.


A proposta não é nova: desde o século XIX, cientistas como Claude Bernard e Elie Metchnikoff já sugeriam uma relação entre a microbiota e o comportamento. Contudo, apenas nas últimas décadas, com os avanços do sequenciamento genético e da metabolômica, tornou-se possível mapear com precisão os efeitos de determinadas bactérias na produção de neurotransmissores como serotonina, dopamina e GABA.



Intestino como “segundo cérebro”



O sistema nervoso entérico contém mais de 100 milhões de neurônios e está diretamente conectado ao cérebro através do nervo vago, bem como pelas vias endócrinas e imunes. Cerca de 90% da serotonina do organismo, por exemplo, é produzida no trato gastrointestinal. Além disso, a microbiota influencia a expressão de enzimas como TPH2, essenciais para a conversão do triptofano em serotonina, desviando-o de vias inflamatórias (quinurenina) e promovendo regulação emocional.



Evidências clínicas



Diversos ensaios clínicos duplo-cegos, randomizados, têm demonstrado que cepas como Lactobacillus plantarum DR7, Lactobacillus rhamnosus JB-1 e Bifidobacterium longum NCC3001 apresentam efeitos positivos na redução de sintomas ansiosos e depressivos, especialmente em quadros leves a moderados.


Um estudo de 2019, conduzido por Chong et al., mostrou que adultos com estresse leve que utilizaram L. plantarum DR7 por 12 semanas apresentaram redução significativa de cortisol plasmático, TNF-α e melhora na atenção e memória emocional. Outros estudos apontam que essa cepa modula a expressão de genes dopaminérgicos e serotoninérgicos, promovendo um efeito sinérgico quando associada a antidepressivos ISRS, como a sertralina.



Aplicações clínicas e implicações psicoterapêuticas



Em consultório, a introdução de psicobióticos pode ser uma ferramenta adjuvante potente — não como substituto de escuta, elaboração simbólica e manejo transferencial, mas como facilitador do processo terapêutico. Pacientes que apresentam sintomas inespecíficos como fadiga mental, oscilação de humor, distúrbios digestivos e sensação de “mente nublada” podem se beneficiar de uma abordagem integrativa, onde a escuta do corpo e da microbiota é acolhida como parte do campo da subjetividade.



Considerações éticas e integrativas



A recomendação de psicobióticos deve ser cuidadosa, considerando individualidade, contexto clínico e, se possível, com apoio de avaliação nutricional ou médica. Embora os efeitos adversos sejam raros, há necessidade de acompanhamento em casos de imunossupressão ou disbiose grave.


Mais do que uma promessa farmacológica, os psicobióticos nos convidam a repensar o lugar do corpo na clínica da subjetividade. São, talvez, uma metáfora viva daquilo que a psicanálise já intuía: que a mente não está separada do corpo, e que há um saber que nos atravessa por vias menos conscientes, menos lineares — mas nem por isso menos verdadeiras.

 
 

©2019 - 2026 por Pedro Kunzler

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