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Maternagem e Maternidade

  • Foto do escritor: Pedro Kunzler
    Pedro Kunzler
  • 18 de jun. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de jul. de 2021


Neste artigo trago aportes teóricos de autores importantes da psicanálise e os conceitos a respeito do processo de maternidade, maternagem e desenvolvimento na primeira infância. Ele foi desenvolvido em 2019 durante a disciplina de “Saúde Materno Infantil: Contribuições da Psicanálise” na graduação de Psicologia.

Enquanto a maternidade é tradicionalmente permeada pela relação consanguínea entre mãe e filho, a maternagem é estabelecida no vínculo afetivo do cuidado e acolhimento ao filho por uma mãe. O modo como se dará esse cuidado, segundo antropólogos, dependerá dos valores socialmente relacionados ao que é ser mulher e ao significado de um filho em um determinado contexto cultural.

A vivência e inclusão da mulher enquanto mãe na sociedade mudaram, em comparação com o que vimos a centenas de anos atrás.

A subjetivação de afetos, sentimentos e desejos para as mulheres foram por anos reprimidos por ideias patriarcais as quais as impediam de conhecer suas vontades e desejos.

Com isso, a maneira que a mãe está sendo tratada hoje não é a mesma de décadas anteriores, a mulher hoje tem seu espaço livre e pode ser considerada um individuo com voz ativa e é percebida em suas diferenças para melhor cuidado nesse momento de gestação parto e puerpério.

As políticas públicas de acolhimento, orientação e tratamento a gestantes proporcionam índices cada vez menores de mortalidade infantil, contudo percebemos que estamos longe do tratamento ideal. Estudos analisados durante a graduação revelam que os transtornos mentais na infância não são irrelevantes, mas recebem pouca atenção das políticas publicas o que deixa um grande numero de crianças sem assistência adequada.

Pelo ponto de vista psicanalítico, em relação ao desenvolvimento infantil deve-se observar o cuidado no período gestacional, parto e puerpério para evitar o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos ou distúrbios de personalidade. Os números de incidência são imprecisos na maioria dos países, uma vez que o diagnóstico não é simples e muitos casos são descobertos de forma tardia, além daqueles são possíveis discernir a estrutura em que se encaixa. A Preocupação Materna Primária, segundo o psicanalista e pediatra inglês Donald Winnicott, é um estado psicológico de sensibilidade exacerbada, que costuma se apresentar no período desde o final da gravidez até algumas semanas após o nascimento do bebê.

Essa sensibilidade por parte da mãe faz com que ela seja capaz de se identificar com a criança e, assim, melhor atender às necessidades dela. Isso será essencial para que a vida da criança tenha o mínimo possível de distúrbios, de forma que ela tenha um ambiente favorável para seu desenvolvimento psíquico e sua constituição enquanto sujeito.

Segundo a psicóloga Maria Kupfer o sujeito se concebe a partir de instâncias psíquicas inconscientes desde o seu início de vida, a partir da sua relação e interação social do campo que lhe é apresentado, também como os desejos e projeções de sua família e cultura, não deixando de lado suas experiências, intercorrências e acasos subjetivos e singulares.

Do campo da cultura e linguagem viram as chaves de significação em torno das quais a criança deverá construir para ela própria um lugar “único” nesse processo será construído o sujeito psíquico, fator importante e decisivo no desenvolvimento da criança.

Quando fatores estressantes ou irregularidades ocorrem na experiência mãe-bebê em sua primeira infância, neste período de constituição do sujeito pode ser desenvolvido algum tipo de transtorno.

Porém, se tratando do cuidado mãe-bebê é evidente que há na sociedade um romantismo instalado sobre o quão grandioso é o papel da mãe.

A maternidade é tradicionalmente permeada pela reação consanguínea entre a mãe e o filho, a maternagem é estabelecida no vínculo afetivo do cuidado e acolhimento ao filho por uma mãe” de maneira que os contextos biológicos e afetivos dessa abordagem abrem margens à presença de um terceiro como cuidador da criança, não necessariamente biológico, mas aquele que acolhe e cuida.


Os cuidados maternos no decorrer da história


Nem sempre os assuntos de cunhos maternais foram abordados dessa maneira, as conjunturas desses ideais permeiam-se no transformar da sociedade. Tomemos como ponto inicial a Idade Média, quando as famílias vinculadas ao modelo econômico vigente, não davam importância ao cuidado do recém-nascido e das mães, a criança então era criada em comunidade não pelas suas famílias em si.

Já ao final da Idade Média, surgem novas concepções econômicas como a ideia de espaço público e privado, cabendo ao estado a responsabilidade de cuidar da produção e aos pais cuidar dos filhos. Então, as crianças agora saem do âmbito da comunidade para ter uma maior proximidade com a família, mas as mulheres que ficaram incumbidas a questões domésticas e dos cuidados aos filhos enquanto os pais a tarefa de trabalhar.

Surge então uma revolta dentre os grupos sociais sendo de suma importância o feminista no século XIX, com mulheres que não gostavam da ideia de se submeter ao homem e descontentes com o papel materno atribuído a elas, isso acaba fundindo uma nova maneira de pensar e agir sobre a sociedade.

Ainda hoje a função dos cuidados é muito ligada à mãe, a mulher, ainda que a função paterna sofreu alterações devidas às novas exigências feministas sobre a causa.

Os cuidados com a maternidade e maternagem referem-se ao interesse com o desenvolvimento saudável da mãe e da criança. São assuntos complexos em multi fatores, sociais, econômicos e de saúde, portanto se faz desde o princípio imprescindível a presença de profissionais devidamente preparados e qualificados para evitar a progressão dos fatores psíquicos prejudiciais e auxiliar no manejo a vida.


O trabalho do Psicólogo

A presença de psicólogos nesse âmbito traz um olhar analítico dos potenciais de risco que se apresentam ao entorno da mãe, em função de auxiliar nas questões de dúvidas e angústias que tanto a sociedade permeia e exige, atuando também no não julgamento, sendo os profissionais com maior carga horária em ouvir o outro, e é de extrema importância para acalmar os ânimos e direcionar as equipes multiprofissionais em situações de não compreensão.

É indiscutível a importância de psicólogos atuantes nesses cenários. Estamos em constantes períodos de mudança na forma de ser e estar na sociedade. A maneira como raciocinamos e entendemos a nos mesmos e aos outros está constantemente sendo testada e questionada o que contribui para conseguirmos alterar padrões que ainda prejudicam mulheres nesse momento decisivo e crucial da vida.

Profissionais que possam compreender as diferentes formas em que irão se apresentara maternidade e maternagem e os relacionamentos subsequentes fazem se necessários imediatamente para o desenvolvimento saudável visando acolher os processos vivenciais, históricos e orgânicos da população.



Pedro Henrique Kunzler



BIBLIOGRAFIA


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