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O excesso de estímulo e a dificuldade de estar consigo mesmo

  • Foto do escritor: Pedro Kunzler
    Pedro Kunzler
  • 10 de mai.
  • 3 min de leitura

O que estamos tentando calar quando não paramos de rolar a tela?



Vivemos em uma época em que o silêncio se tornou quase insuportável. Basta alguns segundos de espera no elevador, uma fila, um intervalo entre tarefas ou um momento de desconforto emocional para que a mão procure automaticamente o celular. Notícias, vídeos curtos, redes sociais, mensagens, estímulos infinitos. Uma sequência contínua de conteúdos que ocupa a mente sem realmente nutrir a experiência subjetiva.


Na clínica, isso aparece cada vez mais. Muitos pacientes não chegam falando sobre “vício em celular”, mas relatam sintomas que atravessam essa dinâmica: ansiedade constante, sensação de exaustão mental, dificuldade de concentração, irritabilidade, vazio, insônia e uma estranha incapacidade de descansar verdadeiramente. Mesmo nos momentos de pausa, a mente permanece acelerada.


O scrolling infinito produz algo muito particular: ele ocupa o aparelho psíquico continuamente. Não há intervalo. Não há tempo para elaboração. O sujeito passa horas consumindo estímulos, mas frequentemente termina o dia com a sensação de que nada realmente o tocou.


Existe um paradoxo contemporâneo importante: nunca tivemos tanto acesso à informação sobre saúde mental, autoconhecimento e emoções, mas isso não significa necessariamente maior elaboração psíquica. Muitos pacientes consomem conteúdos terapêuticos diariamente, conhecem conceitos psicológicos, identificam traços emocionais em si mesmos, mas ainda assim permanecem profundamente desconectados da própria experiência interna.


É como se houvesse uma diferença entre compreender algo intelectualmente e realmente simbolizá-lo emocionalmente.


As redes sociais e os ciclos incessantes de notícias também oferecem uma espécie de anestesia psíquica leve. Não necessariamente porque as pessoas desejem fugir conscientemente de si mesmas, mas porque a hiperestimulação reduz temporariamente o contato com angústias, vazios, inseguranças e conflitos internos. O problema é que aquilo que não encontra espaço de elaboração não desaparece. Apenas retorna de outras formas: ansiedade difusa, compulsões, irritabilidade, sensação de vazio ou esgotamento emocional.


Do ponto de vista neuropsicológico, o cérebro vai sendo treinado para recompensas rápidas, fragmentadas e constantes. Aos poucos, torna-se mais difícil sustentar experiências que exigem continuidade emocional e atenção profunda: ler um livro, contemplar, estudar, permanecer em silêncio, escutar alguém verdadeiramente ou até entrar em contato consigo mesmo.


Na psicanálise, o vazio nunca foi entendido apenas como ausência. Existe um vazio necessário para o surgimento do pensamento, da criatividade e do desejo. Winnicott falava sobre a capacidade de estar só como um importante sinal de amadurecimento emocional. Hoje, muitas pessoas parecem viver em estado de hiperconexão permanente — e, paradoxalmente, cada vez mais distantes de si mesmas.


Talvez uma das questões mais importantes do nosso tempo seja justamente esta: o que estamos tentando calar quando não conseguimos parar de consumir estímulos?


A resposta não é demonizar a tecnologia. As redes sociais também aproximam pessoas, democratizam conhecimento e criam espaços de troca importantes. O problema talvez esteja menos na existência das plataformas e mais na impossibilidade contemporânea de pausa.


Por isso, pequenas experiências de desaceleração podem ter um efeito profundamente terapêutico: caminhar sem celular, ler algumas páginas de um livro sem interrupções, cozinhar com presença, praticar yoga, escrever, contemplar o silêncio ou simplesmente tolerar alguns minutos sem estímulo. São experiências aparentemente simples, mas que ajudam o sujeito a recuperar algo essencial: contato consigo mesmo.


Em tempos de excesso de informação, talvez cuidar da saúde mental tenha menos relação com consumir mais conteúdos e mais relação com reaprender a escutar a própria experiência interna.

 
 

©2019 - 2026 por Pedro Kunzler

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