Por que o corpo é essencial no autoconhecimento
- Pedro Kunzler
- 11 de abr.
- 2 min de leitura

Quando penso na minha trajetória, vejo que o corpo sempre esteve ali, pedindo para ser ouvido. Foi no Kundalini Yoga, que pratico há oito anos, que esse pedido ganhou forma. No começo, confesso, parecia apenas uma prática de exercícios e respiração. Mas com o tempo percebi que era mais do que alongar ou meditar: era como abrir janelas por dentro. A cada kriya, a cada respiração mais consciente, eu descobria espaços novos em mim mesmo.
Não caminhei sozinho nesse percurso. Sempre tive a presença da minha professora, Simone Welzel, que, com sua experiência e sensibilidade, me ensinou que yoga não é performance, mas escuta. Com ela aprendi que o corpo não é um fardo a ser carregado, mas um mestre silencioso. É ele que guarda nossas histórias e nos oferece pistas quando ousamos parar e sentir.
Mas essa não foi a única via de encontro comigo mesmo. Desde a adolescência, frequento sessões de análise. A terapia sempre foi um lugar seguro, onde pude organizar emoções, atravessar dores e me conhecer melhor. No divã, encontrei palavras; no tapete de yoga, encontrei silêncio. Um me mostrou o inconsciente, o outro, a energia vital. E, de algum modo, esses dois caminhos sempre se cruzaram — porque autoconhecimento é isso: múltiplas formas de se encontrar.
Na clínica, vejo diariamente como as pessoas chegam divididas, presas na cabeça, vivendo o corpo como se fosse apenas uma máquina. Mas o corpo fala — e fala muito. A psicanálise sempre nos lembrou disso: sintomas, tensões, até mesmo o vazio têm algo a dizer. O yoga, por sua vez, nos oferece uma forma direta de escutar essa fala, sem traduzir tudo em palavras. Basta respirar fundo, sustentar uma postura e, de repente, algo em nós se desloca.
Muitas vezes, foi no meio de uma prática que percebi o que precisava soltar, onde estava preso ou qual coragem ainda me faltava. Não é mágica. É percurso. É dar ao corpo o direito de ser ouvido e, assim, permitir que ele nos ajude a reorganizar a vida por dentro.
E se olharmos de maneira mais acadêmica, tudo isso faz sentido. Jung já intuía, ao se aproximar das tradições orientais, que a psique é muito maior do que o ego. Hoje, a neurociência mostra que práticas meditativas e respiratórias regulam emoções, reduzem estresse e até moldam novas conexões no cérebro. No consultório, isso se confirma: saúde não é só ausência de sintomas, mas a possibilidade de viver integrado, inteiro.
É por isso que digo: o corpo é essencial no autoconhecimento. Porque ele não mente, não disfarça, não calcula. Ele simplesmente mostra, com clareza, aquilo que precisamos ouvir. Entre a palavra e a respiração, entre o divã e o tapete, é sempre o corpo que abre a porta para que a vida floresça.
“Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.”
— Carl Gustav Jung



